Parceiros: os operários da dança


por Keice Granzotto Casarri

Poderia ser fácil como escolher um guarda-chuva enquanto chove: você compra e pronto! Infelizmente não é. Dança é química, uma composição rara e,  por isso, no tocante aos dançarinos profissionais, não dá para escolher qualquer “guarda-chuva”. Qualquer parceiro(a), não serve.

Profissionais habilidosos, quando dançam juntos, são verdadeiros operários que constroem uma história. Quando um dos dois é ruim e está à quem do outro, não há o que construir.

Dança de salão é dança de salão. Saber dançar jazz, ballet, street dance, sapateado ou o que quer que seja, não qualifica ninguém como um bom par para a dança social. Dançar a dois tem outra linha. Linhas invisíveis por sinal.

Não adianta ser um dançarino(a) altamente capaz, se você escolher um parceiro(a) que domina infinitamente menos, ou nada, sobre a dança de salão e não tem (ou só finge ter) humildade para aceitar o aprendizado e receber correções.

Cada um dança aquilo que é e, durante uma dança, você só poderá ser tão bom quanto o outro lhe permitir ser. Talvez você não mude seu par, mas ele(a) poderá mudar você e pasme: para pior! Não dance com um borrão, um gelo de pessoa  que os pés, braços e face não trazem nenhuma expressão, alguém que só executa movimentos, muitas vezes bem mal executados, e lhe impede de conquistar todos os passos subjetivos existentes em uma melodia.

Procure um(a) parceiro(a) com quem goste de dançar e com quem você possa fazer o seu melhor, que lhe motive a ser sempre mais e lhe dê confiança para chegar até aos próximos passos. Se não for assim, sua a dança será só uma música, que durará por alguns minutos e acabará. Não haverá sentimento, entrega, cumplicidade e leveza. Acredite, colocará sua excelência em jogo, perderá a sua  essência e vai “sumir” enquanto dança.

Dançar a dois, é estar envolvido no mesmo compasso. É uma troca intensa de harmonia, uma energia capaz de desenhar sons e hipnotizar espectadores. Uma boa parceria provoca arrepios, não de susto, de emoção. Se no fim de uma apresentação seus olhos não brilharem e uma parte da platéia nem aplaudir, saiba: você está dançando com quem nunca vai dançar com você.

A emoção e o dançar a dois


por Keice Granzotto Casarri

Entre os principais componentes da dança de salão, encontra-se a emoção. A emoção é nutrida do efeito que causa no outro e as reações que provoca no ambiente funcionam como uma espécie de combustível para sua manifestação, proporcionando relações interpessoais que diluem os contornos da personalidade de cada um. As pessoas se entregam aos mesmos ritmos e, ao dançar com um parceiro um único movimento rítmico, estabelecem uma comunhão de sensibilidade e sintonia afetiva. É como se pudessem adentrar um para dentro do outro.

As danças de salão possibilitam o “toque de pele”, um caminho livre para o indivíduo usufruir seus limites e os limites de outros. Quem dança fica aberto para interagir com o parceiro, gerando uma relação social e pessoal, sendo possível comparar emoções e sensações.

“O nosso experimentar corporal desponta como uma continuidade de sentimentos […] nossa própria experiência é a nossa própria identidade”. (KELEMAN, 1996)

O ser humano é único, mas na dança de salão um necessita do outro e, nessa complexa relação, Mendes et al apud Wallon menciona que o “eu” e o “outro” não podem existir um sem o outro. Dançar a dois,  é saber explorar,  diferenciar  e aprender com o mundo dos sentidos e dos significados próprios e alheios. É, puramente, deixar-se emocionar e causar emoção!

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